A GALINHA DA SEXTA
ANO 02 – Nº 390
Certa vez, fui parte de um episódio engraçado, mas que me deixou lições éticas importantes. Tudo teria acontecido no final da década de mil novecentos e cinquenta, no interior de Cachoeira do Sul, onde passei boa parte da infância. Fomos visitar um casal de amigos que moravam a cerca de uns três quilômetros de nossa propriedade, portanto bastante próximos. Nossa jornada foi a pé, numa tarde de domingo.
O transcorrer da visita foi rotineiro: nossos pais sentaram-se na sala e conversaram sobre aqueles assuntos previsíveis, iniciando com o clima, passando pelo estado dos animais, o desenvolvimento das plantas e desembocando, indiscutivelmente, nos famosos causos gaúchos.
Esse roteiro era cumprido quase invariavelmente em todas as visitas. Quando se chegava aos causos, nós crianças já sabíamos os próximos passos: tomava-se café com bolo e, na sequência, uma caminhada pelas cercanias da casa a fim de olhar a horta, os animais domésticos etc. Finalizada a caminhada era hora dos cumprimentos e abraços e a jornada de volta, que necessitava ser antes do sol se por, com tempo suficiente para arrebanhar os animais para o curral.
No momento da despedida, Dna. Sidoca, a visitada, cumprimentou minha mãe e disse a tradicional frase de cortesia: “apareçam mais seguido, não deixem passar tanto tempo!”. Nesse momento mamãe cometeu uma impropriedade para a época. Respondeu, “qualquer dia venho comer uma galinha com vocês!”.
Quando percebeu já era tarde. Cobriu o trajeto de volta, arrependida pelo que havia dito e tentando, mentalmente, arquitetar um plano para que a vizinha não fosse constrangida a sacrificar uma de suas galinhas em nossa próxima visita. Ao chegar em casa minha mãe bradou: “já sei, vamos visitar o Seu Chiquinho e a Dna. Sidoca na sexta-feira santa, assim ela não terá como matar uma galinha e eu ficarei tranquila porque a besteira que disse ficará sem efeito!”.
Só abrir a boca depois de pensar muito bem o que se vai dizer e quando tiver dito uma besteira, arranjar logo uma maneira de resolver a sujeira antes que ela aniquile a consciência por semanas a fio. Quando me envolvo numa enrascada parecida, sempre me lembro da galinha da Dna. Sidoca, aquela da sexta-feira santa que nunca pude saber qual sabor teria.
Com votos de uma Sexta-feira da Paixão, de contrição e arrependimento, para quem carrega consigo a tradição cristã!
DESTAQUE DO DIA
Nascimento de Mill (239 anos)
James Mill nasceu a 6 de Abril, 1773 e morreu a 23 de Junho, 1836. Foi um historiador e filósofo escocês, um partidário do liberalismo e um famoso representante do radicalismo filosófico, uma escola de pensamento também conhecida por Utilitarismo, a qual defende uma base científica para a filosofia. Suas principais são: Analyse des phénomenes de l’esprit humain e Éléments d’économie politique. Foi pai de John Stuart Mill, filósofo inglês e expressão do pensamento liberal do século XIX.[1]

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