VELHO CEDRO
Nº 522
No
meio do campo vazio, uma enorme árvore! Um cedro! Chegado o tempo da capina, no
calor do verão, sentávamo-nos à sobra para descansar. Próxima, uma nascente, corria
a uma profundidade de três metros. Dali, retirávamos a água fresca para saciar
a sede. Desta fonte, também corria a água que aliviava o suor do corpo.
À
sombra do cedro, escutávamos o gorjear dos pássaros, que assolados como nós,
cantavam com sofreguidão. Escalando o tronco majestoso, pequenos animais e insetos
iam e vinham, em sua faina cotidiana pela comida. Árduo trabalho compartilhado
entre humanos e inumanos! Esta observação rotineira servia de consolo: afinal, todos
estávamos no mesmo labor. Um universo vivo sobrevivia naquela árvore marcada pelo tempo.
Eventualmente,
soprava leve brisa. Folhas secas se desprendiam dos galhos bailando até o chão.
Cada uma, desenhava uma elipse distinta aterrissando espaços diferentes. Ao soprar
mais forte, as folhas se espalhavam e se juntavam. O farfalhar produzia um som
arrastado. Folhas verdes sacudiam vigorosas formando ondas de idas e de vindas. Galhos
se inclinavam e o velho cedro andava!
Nas
tardes de folga, a árvore se transformava em parque de diversões. A gurizada
corria para ver quem chegava primeiro. A escalada do tronco, dos galhos, da imaginação, voava solta em cada um. Sentir-se nas alturas produzia a indescritível sensação
de liberdade.
Sozinho,
no meio do campo, enfrenta temporais de toda a sorte. Mais de cinquenta anos
depois de minha infância, retornei ao mesmo lugar: lá continuava, o velho
cedro, testemunha da resiliência de quem se dobra, mas não se vai...