quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

MORALIDADE LÍQUIDA

ANO 01 – Nº 314

Acompanho superficialmente a polêmica sobre um participante do BBB12, envolvido na suspeita de cometer estupro diante das câmeras de TV com cenas exibidas publicamente. Diante do fato, segmentos da sociedade condenam ora o participante, ora o programa, ora canal que o transmite. Percebo que nas edições seguintes o programa alcança índices alarmantes de assistência, quem sabe em busca de outros episódios de semelhante sordidez.

A mesma rede de televisão exibe, noutra data, a perseguição da polícia e a prisão de assaltantes numa praia do Rio Grande do Sul, auxiliada pelas câmeras de vigilância da cidade. É possível acompanhar a maneira positiva como a sociedade tem aceitado a instalação dessas câmeras por estabelecimentos, prédios e ruas das cidades.

Aquilo que foi preconizado no passado sobre a existência de uma sociedade totalmente controlada por alguém com interesses políticos e sob a vigilância permanente de um “grande irmão”, parece se plasmar nesse início do terceiro milênio da era cristã ocidental. Incerta, sobre os benefícios e as consequências maléficas desse novo modelo, a sociedade se divide entre o aplauso restrito e a crítica moderada.

A moralidade contemporânea titubeia entre o rigorismo regulatório da modernidade e a flacidez de costumes proclamada por exóticos programas televisivos que moldam a consciência da população atual. Ora aplaude, ora critica atitudes semelhantes como a exagerada exposição da intimidade, seja nos programas de reality show, seja na auto-exposição das redes sociais.

Zygmunt Bauman nos adverte que “o código de ética a toda prova – universal e fundado inabalavelmente – nunca vai ser encontrado; tendo outrora chamuscado muitíssimas vezes nossos dedos, sabemos agora o que não sabíamos então ao embarcarmos nessa viagem de exploração: que uma moralidade não aporética e não ambivalente, uma ética que seja universal e “objetivamente fundamentada”, constitui impossibilidade prática; talvez também um oxímoron, uma contradição de termos.”.[1]

Entre a moralidade preconizada por uma ética universal inflexível e a construção de novos pressupostos de convivência humana, a sociedade titubeia cambaleante aprovando isso aqui e o condenando logo ali, mais ou menos ao sabor de interesses individualistas e pessoais. Percebe-se que conviver eticamente numa sociedade líquida desse quilate constitui um desafio monumental para o ser humano contemporâneo.

Com votos de uma boa quinta-feira!




DESTAQUE DO DIA

Nascimento de Jean-François Revele

Jean-François Revele Paris nasceu em Marselha a 19 de janeiro de 1924 e morreu em Val-de-Marne a 30 de abril de 2006. Foi um filósofo, escritor e jornalista francês, e membro da Academia Francesa de Letras. Embora tenha sido socialista até 1970, Revel foi, até o fim de sua vida, um dos mais acesos críticos do marxismo e das esquerdas na intelectualidade francesa. No seu livro A Grande Parada, Revel procura elucidar os motivos para a sobrevivência da ideologia socialista mesmo após a queda do Muro de Berlim e do fim da URSS.[2]



[1] BAUMAN, Z. Ética pós-moderna. São Paulo: Paulus, 2003, p.15.
[2] JEAN-FRANÇOIS REVEL. Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Jean-Fran%C3%A7ois_Revel. Acesso em 19 jan 2012.

2 comentários:

  1. Meu caro Garin,
    estamos encerrando Santiago, Gelsa e eu, lendo teu blogue.
    Concordamos com a trazida de Bauman na definição de uma moralidade líquida.
    Com admiração
    attico chassot

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    1. Caro Chassot,

      obrigado pelo teu comentário: votos de uma boa viagem pela Cordilheira dos Andes.

      Um abraço!

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